sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A pena corre — Livro Ciano

Jonathan:

 Era uma noite profunda e tranquila. A escuridão só dava trégua abaixo das lâmpadas, círculos de luz numa rua abandonada. Me dirigi até uma árvore antiga, que parecia estar à beira da morte, perto de uma das lâmpadas. A luz era fraca, estendendo as sombras da folhagem da arvore até uma casa caindo aos pedaços. Me recostei na parede de tijolos a mostra e coloquei a pesada e grande mala que carregava, no chão.
 Eu esperei por algumas horas o meu contratante chegar. Pensei novamente o quanto ele era meticuloso. Sempre que terminava algum trabalho pensava isso. Sempre achando o lugar perfeito para negociar, sempre usando métodos cuidadosos de comunicação.
 Em dois anos, essa seria a primeira vez que eu o encontraria pessoalmente. Devia ficar nervoso, mas eu estava com raiva e satisfação. Ele me colocava em cada trabalho difícil, fiquei feliz ao saber que finalmente o encontraria, o imbecil que me tratava como uma marionete.
— Chegou cedo, Jonathan— disse uma voz atrás da arvore. Não precisei me esforçar muito para ver dois pontos dourados flutuando na sombra da arvore.
— Aí está você, desgraçado.
— Que gracinha— disse a voz, risonho. O dono dela dá um passo a frente, saindo das sombras. Um homem alto e esguio, moreno de cabelo curto, usando um sobretudo preto e luvas negras de couro. Os pontos dourados eram seus olhos, levemente puxados e apertados, de um ouro brilhante— Você é tão gentil comigo.
 Recuei perante a intensidade daqueles olhos. Pareciam adagas apontadas para o meu coração. Peguei a mala e a abri revelando um monte de pedras avermelhadas envoltas por plástico bolha.
— Tive muitos problemas para conseguir isso e trazer pra cá. A alfândega é muito irritante.
— Realmente. Mas você conseguiu, alcançando minhas perspectivas. E pela coloração dele, você as ultrapassou. Merece muito mais do que combinamos.
— Me pague logo, quero voltar para casa.
— Tudo bem, apressadinho— disse ele, nunca perdendo o tom risonho. Ele estendeu a mão direita revelando duas bolsas de veludo vermelho, eram um pouco grandes e pareciam meio pesadas. Peguei as duas, abri para conferir o pagamento. A primeira estava cheia de pedras preciosas e a segunda de ovos manchados.
— Isso é uma brincadeira?
— Pelo que eu sei, vocês gostam deles, não é?
 Dei as costas e saí de perto dele, muito irritado. Ele estava certo. Adoramos ovos de pássaros, mas ele estava sendo muito gentil. Isso me irritou. Eu só queria voltar para minha casa em Londres.
                                                          
Cauã:

 De volta para a minha casa em uma pequena cidade no interior, estava satisfeito com meu achado. Um talento antes desperdiçado, agora ele sabia como usá-lo.
— “Graças a mim” — disse uma voz vinda da escuridão. Olhos tão dourados como os meus me acompanhavam na caminhada até o meu laboratório— Aposto que você estava pensando isso.
— Eu já disse que às vezes essa sua mania de ler minha mente é irritante, Mahees?
— Mais do que eu gostaria— os olhos de Mahees se viraram para mim, curiosos— Aquele Orc fez tudo o que você pediu?
— Sim, fez. Eu disse que ele era bom.
— Ainda não confio nele. Orcs não são confiáveis, eles são brutos e idiotas.
— Não seja racista, Mahe...— senti algo familiar— Tul está nos chamando.
— Não só chamando, tem algo de errado— disse Mahees, sério.

 Aurora:

Hoje, meu tio por parte paterna e seus dois filhos pestinhas vieram passar alguns dias hospedados na casa de meus pais. Eu os odeio e quando ouvi que eles iriam ficar por algum tempo, decidi de imediato me fechar no meu quarto até que fossem embora. Isso não foi o suficiente para me dar sossego.
 Aqueles pestes corriam nos corredores da casa, brincando de pega-pega, quando um deles quebrou o vaso de minha tia, Jaciara. O vaso ficava numa mesa de vidro perto da porta do meu quarto. Minha tia fez aquele vaso para a minha mãe antes de viajar para Portugal e era a peça de arte que eu mais gostava da minha tia. Um vaso azul e gordo com marcas pretas, se você prestasse atenção perceberia formas de mãos agarrando o vaso em espiral, como um enxame. Gritei com os pestinhas mas não corri atrás deles. Guardei cada pedaço do vaso e passei a tarde toda colando-os.
 Minha única folga foi quando todos foram dormir. Para me acalmar fiz o que sempre adorei fazer, me recostar no batente da janela e admirar o fim da minha rua e da minha cidade. A última casa na rua era velha, mas bem conservada, grande e meio moderna. Tinha o seu mistério, principalmente por ser abandonada e sempre continuar bem cuidada. Isso me fazia pensar que tinha alguém vivendo na casa, e sempre alguém dizia que era ridículo. Mas não me importo com isso, é o que eu acho e pronto.
 A noite estava bem agradável, nem muito quente e nem muito fria. Percebi o quanto estava cansada e me virei para ir dormir. Quando a porta do meu armário abriu. Me assustei um pouco, pensando que algo iria sair dali e lembrei que a porta estava quebrada. Meu pai não tinha consertado, mesmo ele tendo prometido. Suspirei e fui fechar a porta. Três passos depois, fui erguida no ar e jogada dentro do armário, o estrondo foi abafado pelo som da porta do quarto indo abaixo. Pela fresta entre as portas eu vi um lagarto negro do tamanho de um cavalo baixo cheirando o quarto. “Me procurando”, pensei, estranhamente não ligando pelo fato de ser um lagarto gigante.
 O lagarto se aproximou do armário, meu coração batia tanto que parecia querer pular do meu corpo pela boca. Ele rosnou, mostrando os dentes afiados e amarelados. De repente, recuou. Com medo, talvez? Meu coração diminuiu o ritmo, voltando ao normal aos poucos. O lagarto se virou e saiu do quarto, pisando na porta caída. A porta do armário se abriu, convidativa. Saí e respirei fundo.
— Réptil idiota. Quase me matou de susto— sussurrei, nervosa e aliviada por ele ter saído.
— Pelo menos você não morreu— disse uma voz relaxada. Lancei meu olhar mais afiado e, ainda assim, assustado para a porta e ele foi retribuído por duas lâminas de ouro.

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